Por que o ateismo é consistente com o feminismo e a postura pró-escolha

OBS: Este excelente texto foi publicado no Bule Voador anos atrás e peço licença para colocá-lo aqui pois é uma reflexão importante para ilustrar a data de hoje, dedicada ao Feminismo.

Por que o ateismo é consistente com o feminismo e a postura pró-escolha

Amanda Marcotte, com tradução de Åsa Heuser e publicado no Bule Voador em 2012

Ouvintes habituais do meu podcast sabem que na semana passada entrevistei uma ativista atéia, Amy Davis Roth, que tem trabalhado como parte de um esforço mais amplo para combater uma forma de sexismo particularmente nojenta e virulenta na comunidade dos ativistas ateístas. A ignomínia que Amy estava discutindo continuou, e essa semana infelizmente parece que uma excelente blogueira resolveu desistir para evitar ser exposta por um homem que tem um compromisso notavelmente agressivo de tornar conferências seguras para os assediadores sexuais. Esta blogueira, que é conhecida pelo nome Natalie Reed, escreveu um texto comovente sobre a sua desilusão que eu recomendo muito que leiam.

Eu compartilho da angústia da Natalie, por causa da recente descoberta que o movimento ateu/cético tem um não tão pequeno e certamente bastante ruidoso subgrupo de participantes cujo sexismo é tão forte que preferem afugentar as mulheres totalmente do movimento a suportar a indignidade de tratar mulheres como gente. Para mim, ser uma ateia declarada sempre esteve firmemente interligado com o meu feminismo, e de fato realmente é o resultado do meu feminismo. Eu nunca realmente acreditei em qualquer tipo de deus, mas a noção de que o ateísmo é importante e devia ser abertamente discutido eu só desenvolvi realmente porque ela serve à meta maior de criar um mundo que tenha verdadeira igualdade de gêneros. Ativismo ateísta para mim sempre foi sobre objetivos maiores, porque acredito que enfraquecer o domínio mortal da religião sobre o poder é o que realmente é necessário para que as mulheres sejam verdadeiramente iguais.

Feminismo e ateísmo estão interligados para mim tanto a nível filosófico quanto pragmático. Filosoficamente, sempre pensei que tornar a questão “as mulheres são gente” em um debate teológico é idiotice. Um lado cita um versículo bíblico e outro cita outro de volta e, na verdade, as pessoas que acreditam que as mulheres são instrumentos não estão erradas em pensar que a Bíblia lhes dá razão. Desde o primeiro livro da Bíblia, mulheres são consideradas criaturas que existem para servir os homens e não como seres humanos completos em seu pleno direito. Várias outras tradições religiosas têm o mesmo problema de colocar os homens como gente e as mulheres como acessórios. Isso vai totalmente contra o que me parece óbvio, que mulheres são gente tanto quanto os homens.

Foram pensadores ateus os primeiros que encontrei que tinham uma explicação para gênero que era mais compatível com as evidências do mundo real. Simone de Beauvoir, autora do influente texto “O Segundo Sexo”, expôs uma análise racional para o feminismo que estava firmemente enraizado na sua filosofia existencialista ateísta. Simplificando muito o seu argumento extremamente longo: Não há nenhum Deus. Por isso não há nenhuma autoridade maior nos dizendo ‘por que’ estamos aqui. Por isso temos o direito de definir o nosso propósito por nós mesmos. Não há nenhum motivo racional para que esse direito seja estendido apenas a homens porque, novamente, não há nenhum poder maior para determinar que um gênero tenha o papel de líder e o outro o de serviçal. Assim, as mulheres são iguais aos homens, e por uma questão de decência humana, devia ter o mesmo direito à autodeterminação. Elegante, persuasivo e acima de tudo, lógico e baseado em evidências. O ateísmo, certamente, deveria levar ao feminismo, pensei. É simplesmente racional.

O ateísmo a serviço do feminismo me atraiu por razões pragmáticas também. A maior batalha pelos direitos das mulheres neste país [Estados Unidos] gira em torno dos direitos reprodutivos, o que a torna uma batalha pela fé, já que não há nenhum argumento racional e baseado em evidências para restringir o direito de uma mulher decidir se e quando ela irá parir. E também não há realmente nenhum argumento fora dos baseados na fé para acreditar que um embrião sem cérebro é o equivalente a um bebê; para ignorar a realidade científica de que as mulheres criam outras pessoas dentro de seus corpos gestando-as, preferindo acreditar que os homens criam outras pessoas por ejacular, significa que há uma crença de que o ato da concepção é sobrenatural; uma crença de que uma versão cristã do que é a “alma” é de alguma forma injetada para dentro do óvulo junto com o esperma. Até mesmo os anti-escolha compreendem isso; eles “acreditam” que “a vida começa na concepção”. É uma crença. Não tem relação nenhuma com fatos. E essa crença é fundamentalmente religiosa por natureza. É por isso que é importante entender que as tentativas de banir o aborto ou conseguir que óvulos fertilizados sejam legalmente definidos como “pessoas” são tentativas de violar a Primeira Emenda e usar o estado para impor um certo tipo de dogma religioso.

Por esta razão, me parecia que apoiar o crescente movimento ateísta beneficiaria os direitos reprodutivos a longo prazo. Os anti-escolha insistem que o debate sobre a escolha é de cunho teológico sobre quando a “vida”, ou seja, quando a introdução da alma, começa. Se o público em geral entendesse que uma porcentagem substancial de americanos não acredita em almas de maneira alguma, então seria muito mais fácil perceber por que a questão teológica sobre quando a “vida” começa não tem absolutamente nenhum lugar na lei. O mesmo vale para os direitos de homossexuais; se você não acredita em um poder maior sobrenatural determinando papéis de gênero e nos dizendo para que ‘servem’ o sexo e o casamento, então não existe argumento contra a igualdade para gays e lésbicas. Não que eu pensasse que todos precisavam se desconverter para entender essas coisas. Eu pensava mais que, se o público em geral aceitasse o ateísmo como um estilo de vida legítimo, ficaria mais fácil para eles entenderem por que os argumentos religiosos não tem lugar nas políticas públicas, porque a lei deveria servir tanto a religiosos quanto a não-religiosos. O único jeito da lei cumprir isso é deixando que essas questões sejam decididas a um nível pessoal, e não impondo o dogma religioso de um grupo em forma de lei.

É claro que todos esses argumentos dependiam de um movimento ateísta que consistisse de pessoas que percebessem o modo como a religião e o patriarcalismo estão interligados, e ainda notassem que a recusa em acreditar em Deus, se seguida de sua conclusão lógica, significa abandonar a crença de que mulheres existem para servir aos homens. Em minhas interações com o movimento ateísta, eu diria que a maioria dessas pessoas de fato percebem essas coisas e chegaram logicamente ao feminismo por conta disso. Mas, como Natalie Reed e outras já descobriram, uma percentagem não desprezível de homens ateus estão convencidos de que podem ao mesmo tempo não acreditar em um deus e ainda assim de alguma forma concluir que as mulheres foram postas (por quem?) aqui na Terra para o propósito de agradar e entreter os homens. E que, por isso, as mulheres que se rebelam contra isso por, digamos, exigir o direito de não serem assediadas sexualmente só porque um sujeito sentiu vontade de fazer isso, são bruxas malvadas que precisam ser ferozmente atacadas. Todos esses anos, sexistas irracionais pensaram que precisavam de um Deus em quem se respaldar para dizer às mulheres que os nossos corpos pertencem aos homens e não a nós mesmas. Mas ficou claro que muitos homens sentem que eles próprios são a única autoridade necessária para tirar esse direito básico das mulheres.

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