A religiosidade do brasileiro estimula credulidade em assuntos não-religiosos

Muitas ideias erradas acabam por se arraigando, quando aceitas automaticamente sem verificação. É como alguém que engole uma comida sem mastigar, sem sentir o sabor do que entrou em sua boca.

Os brasileiros ultimamente andam defendendo mitos que a lógica e ao bom senso demonstram estar errados, mas graças a consagração pela opinião publica, se transformam em "verdades inquestionáveis". Exemplos?

- Moral depende de religião? Será que ateus tem péssimo caráter?
- Como um mediano cantor de música de mercado como Michael Jackson, pode ser considerado o maior gênio da música? Só porque vendeu muitas cópias de um disco e apareceu muito na mídia?
- O BRT é realmente o melhor tipo de ônibus a ser aplicado em qualquer cidade brasileira? Não há outro? Qualquer cidade aceita esse tipo de transporte?
- Todos se casam por amor? O que é amor? É realmente impossível um casamento durar sem amor?
- Futebol realmente não é obrigação. Então porque todos se chateiam quando de repente conhecem alguém que não curte?
- Grande empresários são sempre gente do bem? `Porque eles enriquecem? Tem o direito de ganhar muito mais que as outras pessoas, mesmo tendo as mesmas necessidades? Porque eles interferem nos governos, mandando nos governantes?
- Só político é corrupto? Ninguém ainda se lembrou que existe corrupção no esporte, no entretenimento e até nas religiões? E não somente na cúpula, pois muita gente "de bem" também é capaz de enganar?

Estas e outras perguntas não passam nas cabeças da maioria dos brasileiros, pois estas questionam mitos que se tornaram arraigados na sociedade brasileira, por causa da simples falta de verificação e pela difusão das mesmas por pessoas e instituições da grande prestígio.

Para derrubar estes mitos falsos, necessita-se de um bom discernimento, coisa cada vez mais rara em nossa sociedade. Claro que há o analfabetismo funcional (sabe ler, escrever, mas não sabe analisar e questionar), mas a religiosidade foi muito útil em complementação à tradicional preguiça em raciocinar.

Simples: alguém com visibilidade (exemplo: líderes religiosos, mídia, ídolos, especialistas, etc.) lança uma ideia certa ou errada (errar faz parte da essência humana). O prestígio ligado a esse visionário lhe dá a credibilidade perante a opinião pública que, confiante em seu prestígio, imagina que tudo que venha dessa pessoa ou instituição esteja certo, já que o prestígio dá a ilusão de infalibilidade ao mesmo.

E bingo! A ideia é aceita automaticamente pelos receptores e se consagra perante a população que a transforma em uma espécie de "lei" aceita popularmente. E aí de quem questionar, pois conforme o tempo vai passando, a ideia acaba ganhando valor e se arraigando, tomando a forma de "verdade inquestionável", mesmo carregando uma série de erros - uns até graves - dentro dela.

A religião, há milênios, já adotava essa tática de difundir erros e ficções como "verdades". Uma nação extremamente religiosa como a brasileira, carente de proteção e de "heróis", encontra, mesmo falsamente, nas religiões, a razão de sua felicidade, que ela não consegue  adquirir de maneira concreta. Essa busca desesperada por essa felicidade postiça a faz crédula, se acostumando a acreditar no lugar de analisar, a informação recebida.

Com o fortalecimento das religiões, em coerência com a onda de mediocrização e de neo-conservadorismo em que vivemos, o raciocínio, a intelectualidade e os intelectuais estão cada vez  mais desprezados e até hostilizados, agravando ainda mais a burrice coletiva gerada pela á qualidade da educação e da poderosa influência midiática.

Vai demorar muito para que o brasileiro largue a credulidade aprendida com as religiões e tome coragem e resolva analisar objetivamente as informações que recebe, sem consagrar qualquer coisa como "erro" ou "acerto" sem o uso do discernimento. Nem sempre alguém prestigiado ou alguma instituição consagrada estão corretos. Avaliar o que eles dizem, examinando cada detalhe da informação recebida, é a melhor forma de não sermos enganados e de conhecermos melhor tudo aquilo que nos rodeia, sem iludir com ficções disfarçadas de "verdades".

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