A hipocrisia oportunista das efemérides pseudo-altruísticas

Um amigo nosso, que pediu para não ser identificado, nos contou que na cidade dele estão pintando os ônibus de rosa para estimular a campanha contra câncer de mama, algo que virou tradição em todos os meses de outubro. Até aí, tudo bem, pois tratar da saúde é algo essencial e necessário para o bem estar e para a sobrevivência.

Mas o que me incomoda é a reação de apoio a esta campanha, por pessoas que não tem o hábito de militar em causas altruísticas. Muitos dos que aderem a campanha, são capazes das mais vergonhosas atrocidades em outras ocasiões. Essa adesão pseudo-solidária revela uma hipocrisia que é frequentemente vista em qualquer efeméride religiosa ou em campanhas de solidariedade.

As pessoas preferem a caridade paliativa, aquela que não melhora a vida como um todo. Também desejam que a felicidade e o bem estar seja privilégio de uma minoria, preferindo o assistencialismo individual e cultuando um e outro pobre que "subiu na vida" como prova da validação da tese absurda da meritocracia.

A meritocracia, para quem não sabe, é uma tese inventada por capitalistas que supõe que todo homem bem sucedido começou na mais absoluta miséria e lutou sem qualquer tipo de ajuda (homens bem sucedidos costumam ser ajudados, pelo menos por amigos e sócios) para chegar aonde está. Esta tese transforma direitos básicos, o que deveria ser algo essencial, em uma espécie de "troféu" conquistado por esta suposta "luta".

No geral, com meritocracia ou não, a sociedade, que é essencialmente, mas enrustidamente egoísta, tem uma noção torta do que é altruísmo. Na verdade essa adesão a causas solidárias na verdade soa uma forma de se auto-rotular de bondosa para conquistar aprovação e confiança social.

As pessoas sentem a necessidade de parecer bondosas para que obtenham aceitação social e conquistam direitos que elas não seriam capazes de conquistar sozinhas. Acabei de falar que pessoas costumam ser ajudadas. Se subir na vida sozinho fosse fácil e desejável, ninguém faria questão da vida social e ninguém moldaria a sua personalidade para agradar aos outros.

Parecer bondoso atrai aprovação alheia e favorece muitos interesses particulares. Mas a verdadeira solidariedade, geralmente praticada por ativistas de esquerda, não serve, pois exige intelecto relativamente desenvolvido e negação de certas convicções e prazeres "positivos", esforços que conservadores nunca pensam em desistir seja qual for a razão.

Por isso que a caridade paliativa e a adesão hipócrita a datas como o Natal e campanhas como a do câncer de mama parecem mais adequadas. Elas não exigem desistência de convicções pessoais nem o desenvolvimento intelectual que melhora a percepção de nossa triste realidade. E o "legal" dessas formas hipócritas de solidariedade é que se pode fingir de bondoso sem ser de fato, atraindo prestígio social que beneficia muito mais o "caridoso" do que o carente supostamente auxiliado.

Por isso que o mundo nunca muda e que vilões agem no mais absoluto silêncio, rodeado de multidões que confiam em sua falsa bondade, Fingir que ajuda os outros é uma das maneiras mais fáceis de subir na vida e essa nem a hipotética meritocracia encontrou um meio de explicar. Até porque não basta saber, basta acreditar. Os bons são maioria? Acredite nisso para ver no que dá.

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