Devemos orar por Paris? Prefiro crer que não

Uma hashtag foi destaque hoje no Twitter após a imbecil tragédia que aconteceu ontem, que infelizmente não é a primeira e nem será a última, graças a nossa incapacidade de entender o outro. A tal hashtag é #PrayForParis, como se orações pudessem compensar a ausência das pessoas falecidas. 

Religiosos dos dois lados cometem seus atos de ignorância. De um lado, os terroristas islâmicos que por causa de uma má interpretação do Alcorão (o Islamismo é pacifista, o fundamentalista não) cometeram o massacre hediondo. De outro lado pessoas desesperadas recorrendo a ilusão da religião para tentar se consolar pelo falecimento de inocentes, como se a rezadeira pudesse trazê-los de volta, o que é logicamente impossível.

As elites brancas e cristãs sempre se desesperam em horas como esta. Clamam por apoio maciço da humanidade como se elas merecessem mais do que outros povos o respeito, a segurança e o direito a vida. Como se outros povos não merecessem os mesmos direitos.

Em abril, uma tragédia similar aconteceu em uma universidade do Quênia (terra da família da bela atriz Lupita Nyong'o e de muitos corredores que vem competir no Brasil), na África, com um número enorme de vitimas. Não teve repercussão porque fomos programados (sim, programados - o termo é este mesmo) para ignorar o que acontece nos diversificados países do continente africano, que nosso racismo enrustido nos faz pensar ser uma coisa só, um balaio de gatos homogêneo.

Esse caso me leva a crer que gostamos de nos parecer bondosos de acordo com estereótipos. Escolhemos quem deve ser admirado e odiado por nós e ainda insistimos na tolice de utilizar a religiosidade, totalmente construída com lendas criadas pela mente humana, para interferir na realidade. Como se Deus, um ser tão real como Mickey Mouse, tivesse o poder de fazer aquilo que recusamos a fazer.

E o que podemos dizer da tragédia? Horrível é pouco. A vida é o mais essencial dos direitos e lutarei ate o fim para defender o direito à vida, exceto quando este direito ameaça a vida de inocentes. 

Mas tragédias como estas acontecem, como eu havia falado, por causa de nossa ignorância em entender aquilo que não faz parte do universo que construímos em nossas mentes. Graças a internet, somada a nossa péssima educação recebida, perdemos a noção do que é real ou virtual e cada um constrói seu universo mental a seu bel prazer, ignorando que o universo construído nas mentes alheias pode ser bastante diferente, oposto em muitos casos. E daí nascem as polêmicas que estamos cansados de ver.

A perda de noção entre virtual e real tem fortalecido a religiosidade, que não passa de mitologia moderna a trabalhar lendas como se fossem fatos reais. Perdemos muito com a religiosidade e ainda continuaremos perdendo se não nos livrarmos dela.

Você está pensando ainda em orar por Paris? Ore se quiser, mas saiba que os terroristas oraram antes de matar os vítimas de ontem. O Deus deles sempre entra em atrito com o Deus dos cristãos. E quais dos deuses tem mais razão? Certamente que nenhum deles.

No nosso caso, orar por Paris é uma perda de tempo. Não é hora para fingirmos bondade. Orações não trarão de volta os mortos e não resolverão os problemas que deram origem a essa triste tragédia.

Amadureçamos e abandonemos definitivamente a infantil e inútil religiosidade. Pois a religiosidade nos abandonou desde o começo, há mais de 2000 anos.

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