Deuses de mármore

OBS:  Devemos fazer com tudo na vida o que Michelangelo fazia com o mármore para criar suas estátuas: as estátuas estavam ali, prontas. O que o famoso escultor fazia era simplesmente limpar dos excessos inúteis. 

Estamos cheios de excessos inúteis em nossas vidas, excessos que travam a nossa evolução e nos prendem na ignorância crônica. E não é só na religiosidade, apesar de ser nela onde mais vemos essa teimosia em permanecer na ignorância, mas em tudo. 

Desaprendemos a pensar, a questionar e analisar. Sem esse questionamento, aceitamos o mármore bruto pesando ser ele a linda estátua a admirar. Aprendamos a limpar as nossas mentes e eliminar a ignorância, a fé cega, a aceitação passiva de tudo. 

Há muitas coisas a burilar e muitos excessos a eliminar. Somente a recusa na aceitação fácil de tudo transformará os mármores brutos nas estátuas que tanto desejamos admirar.

Deuses de mármore

Publicado em 16/03/2013 por Barros - Blogue DeusIlusão

Diz-se que, quando perguntado como era capaz de esculpir estátuas tão perfeitas, Michelangelo costumava responder:

       "Ela já estava lá, dentro do bloco de mármore; eu só retirei os excessos."

Embora fosse um meio de expressar sua indevida modéstia, não se pode dizer que o famoso escultor estivesse errado: todo o seu trabalho se resumia a retirar os pedaços que não estavam destinados a fazer parte de sua obra. O material que compõe a estátua pronta, como ele bem observou, sempre esteve lá, escondido por trás dos excessos de pedra a que ele se referia.

Outro dia me dei conta de que a Bíblia sagrada dos cristãos é, também, um bloco de mármore, a partir do qual cada crente esculpe o seu próprio Deus, de acordo com suas preferências pessoais, assim como um escultor tira de uma pedra bruta a figura que bem quer. Não admira haver tantas denominações religiosas, tantas interpretações diferentes para um mesmo livro sagrado, tantas regras diferentes que, se descumpridas, conduzirão a diferentes infernos…

Dizer que o Deus cristão é único é uma das maiores mentiras do cristianismo, se não a maior, a começar pelo seu próprio dogma da Santíssima Trindade, que obriga o religioso a se entender com dois deuses ao mesmo tempo — Jesus e o Pai dele — , porque o Espírito Santo, a bem da verdade, nem fede nem cheira.

Um leitor do blog vez e outra costumava escrever nos comentários dos meus textos: Desse Deus em que você acredita, eu também sou ateu. Isso como forma de rebater os argumentos em que eu descrevia as incongruências entre o Deus-Papai Noel com o qual os cristãos viciam seus filhos, e o Deus esquizofrênico presente em toda a Bíblia. Para esse meu leitor, aquele Deus a que eu me referia nos posts do blog simplesmente não existia; daí ele se considerar, também, um ateu. Só que todos os meus textos sobre Deus são baseados na Bíblia, que é a única “fonte” original sobre ele. Para acreditar num Deus de amor, justo e bonzinho, o cristão precisa fazer, com o seu livro sagrado, o mesmo que o escultor faz com um bloco de mármore: retirar tudo o que não serve para compor a estátua que ele já imagina estar ali dentro. É um processo bastante ineficiente, nesse caso, porque, mantendo a comparação, os pedaços da Bíblia que ele jogou fora para moldar o seu Deus continuam sempre lá.

Eu, que moro a menos de quinhentos metros de uma boca de culto de Testemunhas de Jeová, tenho exemplos sem conta para ilustrar isso. Como se sabe, uma vez por semana elas saem batendo de porta em porta para entregar revistas, panfletos, e falar do amor que uma certa criatura que se esconde numa dimensão mágica tem por você. O engraçado é que, quando o meu pai vai atendê-las, eles costumam demorar uns dez, quinze minutos conversando. Quando sou eu, a conversa não se estende além de uns dois minutos:

 – Deus me ama? E se, por acaso, eu não resolver amar ele de volta, ele vai me jogar no Inferno?

 – Olha, Deus amou tanto o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna.

 – E Deus amou tanto o mundo a ponto de afogar as pessoas num dilúvio, como quem dá descarga.

Quando a conversa é com meu pai, suponho, as Testemunhas de Jeová se detêm falando de amenidades, quando o Deus-Bipolar estava de bom humor, talvez. Quando é comigo, eu descaradamente faço com que elas contemplem os pedaços da Bíblia que não fazem parte do Deus que elas esculpiram para si mesmas.

Todo religioso com quem já conversei age como se o Deus do Antigo Testamento tivesse morrido. Isso mesmo. É como se ele tivesse existido, criado o universo, tocado o terror na Terra por um tempo e, por fim, tivesse envelhecido e batido as botas, igualzinho a todo mundo. E como “Deus morto, deus posto”, eis que a vaga veio a ser ocupada por seu filho, Jesus. E é a esse que as pessoas que conheço se referem o tempo todo, mal lembrando do outro lá, o falecido.

Quando algum crente menciona Deus, nunca é o Deus bíblico. É um Deus que ele criou em sua cabeça, a partir da ideia que faz de como um deus deveria ser.

Um escultor pode olhar para um bloco de mármore e imaginar a figura que irá tirar dele, assim que cortar fora os pedaços de pedra que a estão escondendo dos olhos do mundo. Enquanto não começa a trabalhar, só o artista vê o que ali está escondido. O cristão tenta fazer o mesmo com a sua divindade, mas, diferentemente do mármore, a Bíblia não se deixa despedaçar. Daí o crente precisar contar com a boa vontade dos outros para imaginar, junto com ele, o mesmo Deus que ele imagina ver sob o mármore. É a razão de tantas religiões cristãs: cada grupo de pessoas vê um Deus diferente.

Se você quiser fazer um teste, sempre que alguém vier “falar de Deus” pra você, esse Deus que se diz ser bondoso, paternal, perfeito, etc., aponte no Antigo Testamento um dos sem-número de trechos que descrevem um Deus malévolo, belicoso e infestado de péssimos atributos humanos. As chances são de que a pessoa sugira que você faça o que ela mesma já fez: jogar fora esses pedaços de Bíblia que não fazem parte da sua escultura.

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