A mensagem humanista de Carl Sagan

Como eu havia dito em outra postagem, é uma mania nossa achar que somente religiosos podem ser extremamente bondosos e trazer grandes lições de vida. Mas em muitos casos justamente religiosos acabam decepcionando, o que para nós, irreligiosos, é um fato natural, já que religião rima com ilusão e que a caridade e o amor ao próximo não depende das crença em dogmas, muitos desses, ficcionais, absurdos e desprovidos de qualquer sentido.

Uma das maiores lições de vida através de uma mensagem foi dita por um cientista que se assumia ateu, o astrofísico Carl Sagan, que alegrou minha infância com a bela séria de crônicas Cosmos, hoje apresentada brilhantemente pelo seu discípulo, o também astrofísico Neil DeGrasse Tyson, que teve a felicidade de conhecer seu mestre ainda na juventude.

Sagan, que está desde 1996 nas dimensões não materiais do cosmos, nos deixou uma bela mensagem, inspirada na imagem que muitos cientistas enxergam da Terra quando ela parece longe, fotografada poor algum satélite ou sonda.

A mensagem de Sagan, discursada poucos meses antes de seu falecimento, é de uma sensibilidade ímpar que não costumamos esperar de um cientista. É sensível e humana e faz nos refletir muita coisa em apenas um só texto. São lições de vida que fazem nascer nossa humildade e nos estimulam a amar mais a nossa vida e lutar por ela.

Um homem sábio sobre as questões do espaço, soube também ser sábio sobre a questões humanas. Enxergando o espaço, também soube como poucos, enxergar o interior humano, a nossa alma. Uma linda mensagem que muitos religiosos não seriam capazes de dizer:

Pálido Ponto Azul (Pale Blue Dot) - Por Carl Sagan

Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada "superestrela", cada "líder supremo", cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali - em um grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.


Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o "pálido ponto azul", o único lar que conhecemos até hoje.

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