Saramago: "se o homem fosse imortal, não precisaria de Deus"


Por José Saramago - do Livro As palavras de José Saramago

Se o homem fosse imortal, não precisaria de Deus;

Deus é uma criação humana, como muitas criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia;

Fica claro que o milagre é uma ilusão de ótica absurda e inútil. Cristo expulsa os demônios do corpo de um pobre homem e eles entravam nos porcos que morriam endiabrados na água libertando novamente os diabos para entrar em qualquer corpo. Você sabe, o diabo não morre;

Esta religião (o cristianismo) foi fundada sobre sangue, sofrimento, renúncia e martírio. É uma religião de horrores. Em o Evangelho segundo Jesus Cristo, o meu diabo até diz: “é preciso ser Deus para se gostar tanto de sangue”, o que soa como um soco no estômago. O próprio diabo diz a Jesus, quando ele sacrifica a ovelha a mando de Deus, “você não aprendeu nada”, quer dizer, não aprendeu a respeitar a vida, a resistir;

Há quem continue buscando Deus porque ainda não apagamos totalmente o medo, nem eliminamos a morte;

O Vaticano, como já não crê na existência da alma, se ocupa da repressão dos corpos;

O Vaticano se escandaliza muito facilmente, especialmente com pessoas estranhas a seus quadros. Eles deveriam se concentrar nas suas orações e deixar as pessoas em paz;

A mensagem do cristianismo é que devemos amar-nos uns aos outros. Não tenho obrigação de amar a todos, mas, sim, de respeitar a todos;

A Igreja católica, que tanto critica “os fundamentalismos” de outras religiões, na verdade está dando mostras de uma cegueira sem limites, o que era de esperar desses campeões da intolerância;
Sou um ateu produzido pelo cristianismo;

As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos. As religiões serviram sempre para dividir. A história de uma religião é sempre uma história do sofrimento que se inflige, que se autoinflige ou se inflige aos seguidores de outra e qualquer religião. E isto parece-me de tal modo absurdo que creio mesmo que o lugar do absurdo é por excelência a religião;

Levamos o diabo e Deus dentro de nós; aí nasceram e aí continuam vivendo. O bem e o mal são obra humana. Não posso acreditar num Deus que não existe ou que nunca se apresentou. Eu não necessito de Deus. Nunca tive nenhuma crise religiosa. Vivi meu ateísmo numa tranquilidade total. E digo a mim mesmo: nasceste, estás vivendo, morrerás, e acabou;

O mundo seria mais pacífico se todos fôssemos ateus;

Tenho umas contas para acertar com Deus, porque há coisas que não lhe perdoo, se supostamente ele existir. Não suporto a maldade e a hipocrisia que cresceram à sombrar não só do cristianismo, mas das religiões em geral, que nunca serviram para unir os homens;

Tudo o que existe, toda a percepção que temos do que existe está em nossa cabeça. Quer dizer, às vezes digo que o lugar da transcendência é a mais imanente de todas as coisas, que é o cérebro humano: é aqui que está Deus, é aqui que está a justiça e a injustiça. Tudo está dentro da cabeça. Então, talvez o que esteja ocorrendo conosco seja uma caminhada lenta, muito lenta, cheia de contradições, em direção à razão. Mas não creio que já tenhamos chegado.

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